O senador deveria entender que a missão central do Banco Central deveria ser apenas uma: "estancar a sangria" da inflação
Por Helio Gurovitz
O senador Romero Jucá defende a ideia de conceder um mandato duplo ao Banco Central (Foto: Bernardo Caram / G1)
A proposta de autonomia do Banco Central que tramita no Congresso,
incluída entre as novas metas do plano econômico do governo depois do
fracasso da reforma da Previdência, estabelece um mandato duplo:
controlar a inflação e incentivar o crescimento econômico.
A ideia, na forma como descrita pelo senador Romero Jucá, é inspirada
no modelo criado para Federal Reserve americano em 1935, para debelar a
depressão dos anos 1930. Enquanto os BCs de todos os países, em especial
o Banco Central Europeu (BCE), têm como alvo apenas o controle
inflacionário, nos Estados Unidos o Fed tenta manter baixos dois
índicadores: inflação e desemprego.
Jucá falou explicitamente em crescimento. É possível discutir
academicamente se o melhor indicador a monitorar seria a alta real no
PIB (descontada a inflação), a alta nominal, o desemprego ou qualquer
outro tirado da cartola. Seja qual for, a mudança representaria uma
transformação essencial na condução da política econômica.
O crescimento está hoje a cargo dos ministros, a quem cabe a condução
dessa política, de acordo com o programa de governo escolhido
democraticamente nas urnas. O Banco Central tem o dever apenas de cuidar
da política monetária, além de regular e fiscalizar o sistema
financeiro. Um banco central independente e sem vínculo político, como o
preconizado por Jucá, teria ainda menos legitimidade para ir além
dessas atribuições de ordem técnica.
O Brasil segue o modelo europeu desde que foi estabelecido, em 1999, o
regime de metas de inflação. A única diferença é que, aqui, a autonomia
do BC é informal, enquanto está gravada na lei de dezenas de países – do
Chile à Austrália, da África do Sul ao Canadá. Torná-la uma exigência
legal aumentaria a confiança do mercado na política monetária.
A ideia de conceder mandato fixo, independência e proteção legal aos
diretores do BC é antiga. Na época em que o petista Antônio Palocci era
ministro da Fazenda, ele falava em “autonomia operacional” – embora o PT
fizesse questão de manter a ingerência política.
O preço ficou claro no governo Dilma Rousseff, quando o então
presidente do BC, Alexandre Tombini, ainda sob o efeito da crise
financeira global, deu um cavalo de pau na política de juros. Naquele
momento, interessava ao governo, de olho nas urnas em 2014, manter a
economia aquecida para mostrar que tudo ia bem por aqui.
O resultado é conhecido: a inflação disparou; o mercado perdeu a
confiança no BC; a crise se aprofundou; Dilma teve de voltar atrás em
suas promessas de campanha e encetar um mal-ajambrado ajuste fiscal; não
tendo de onde tirar dinheiro, maquiou as contas públicas – e caiu em
virtude de seus crimes fiscais.
Essa história ilustra o risco de conceder ao BC um mandato duplo. Para
que a ideia de Jucá funcionasse, basicamente duas condições precisariam
ser satisfeitas – e nenhuma delas está garantida no Brasil.
A primeira, óbvia, é a independência real de ingerência política. Isso
já é complicado no caso do Fed, do BCE e de congêneres mundo afora.
Mesmo nos Estados Unidos havia um temor, até agora infundado, de que o
governo Donald Trump quisesse intervir na política de juros por meio das
nomeações à disposição em seu mandato (cinco dos sete diretores do Fed,
entre eles o novo presidente, Jay Powell).
Mas, como sabe todo bom economista, o mercado não age de modo racional.
Bastou o temor para, na troca de bastão entre a ex-presidente Janet
Yellen e Powell, as bolsas interromperem a alta ininterrupta que
mantinham desde o início do governo Trump.
A segunda condição, menos óbvia, diz respeito a instrumentos e
conflitos de atribuição. Que tipo de arma, além da política monetária,
terá o novo BC preconizado por Jucá para incentivar o crescimento? Pela
lógica, nenhuma. Quando houver conflito entre as duas metas, inflação e
crescimento, qual será o critério para a política monetária? Não se
sabe.
Nos Estados Unidos, essa dificuldade se apresentou de modo claro nos
anos 1970. O Fed patinou diante da crise do petróleo para manter a
economia aquecida, e a inflação disparou. Só quando Paul Volcker assumiu
a presidência e levou os juros às alturas foi possível deter a escalada
inflacionária e abrir caminho para a prosperidade da Era Reagan. Não
houvesse o mandato duplo, é provável que a economia não tivesse sido
lançada perto do precipício.
A sucessão de bolhas ao longo dos anos 1990 e 2000, culminando no
estouro de 2008, também está relacionada ao duplo mandato. O Fed de Alan
Greenspan acreditava que uma nova era de produtividade permitia manter
pleno emprego sem riscos inflacionários. A inflação ficou disfarçada por
uma miríade de instrumentos financeiros tidos como "inovadores".
Resultado: a maior crise desde a Grande Depressão.
Depois da crise, o Fed ampliou seus poderes de fiscalização e regulação
sobre os bancos. Ficou mais parecido com o nosso BC – escolado pela era
da hiperinflação, ele mantém o setor financeiro sob rédea curta e é
considerado um exemplo global.
Desde então, regular o setor financeiro e zelar pelo crescimento impõe
ao Fed um óbvio conflito de atribuição. Para um banco central, fica mais
confortável, como fez o Fed, tratar de uma crise financeira sem punir
os responsáveis, pois isso ameaçaria a confiança do mercado e imporia
freios à economia. Na dúvida entre o papel regulador e punitivo e o
dever de manter o índice de emprego, como o BC agiria? Também não se
sabe.
É provável que Jucá acredite que, com mandato duplo, o BC deixaria o
papel de vilão da economia – aquele que, na visão estapafúrdia tão
disseminada em Brasília, em especial entre os esquerdistas, só quer
saber de subir os juros para fazer agrados aos bancos.
Na realidade, um BC forte e independente é a melhor forma de
disciplinar o setor financeiro. O mandato duplo criaria apenas dilemas
adicionais e tornaria ainda mais difícil uma missão que, pelo histórico
brasileiro recente, já é suficientemente complicada. A missão de, para
usar uma imagem cara a Jucá, "estancar a sangria" da inflação.
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Luismar Coutinho
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Luismar Lacerda Coutinho Presidente da Associação dos Corretores de Imóveis do Município de Rio Verde Goiás e Distritos ASCIRVD seja um associado