sexta-feira, 28 de outubro de 2016

As palestras de Lula e Bill Clinton

HELIO GUROVITZ

Sexta-feira, 28/10/2016, às 08:34, por Helio Gurovitz
As palestras de Lula e Bill Clinton
Former President Bill Clinton addresses the Democratic National Convention in Philadelphia, Pennsylvania, U.S. July 26, 2016.


Na campanha eleitoral americana, o Wikileaks tem sido usado para vazar documentos obtidos por hackers russos, entre eles e-mails do chefe da campanha de Hillary Clinton, John Podesta. Os democratas acusam o fundador do Wikileaks, Julian Assange, de estar a serviço do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e de violar a privacidade ao divulgar e-mails em lote, sem nenhum tipo de filtro.

É verdade que o Wikileaks está longe de seguir os preceitos do jornalismo profissional. O ex-editor do Guardian, Alan Rusbridger, chamou Assange de “editor-ativista” para estabelecer o contraste entre as atividades dele, a serviço das causas que defende, e as da imprensa profissional.

Muitos documentos divulgados pelo Wikileaks nesta campanha são irrelevantes. Boa parte não passaria no crivo de jornalistas mais sérios. Mas alguns têm um interesse inegável. Em especial um memorando divulgado na última quarta-feira, que esclarece as atividades do ex-presidente Bill Clinton como palestrante.

O documento não apenas comprova os conflitos de interesse de Bill nas funções de líder de uma organização filantrópica (que recebe verba de empresas privadas) e palestrante (que recebe para falar ao público dessas mesmas empresas). Ele permite ainda uma comparação da carreira dele à de um outro palestrante que se tornou célebre nas investigações da Operação Lava Jato: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em vários discursos e no depoimento que prestou à Polícia Federal em março, sob condução coerciva, Lula comparou várias vezes sua atividade à de Bill. “Todas as minhas palestras custam exatamente US$ 200 mil, nem mais e nem menos”, afirmou. “Pegamos um valor do Bill Clinton e falamos o seguinte: ‘Nós fizemos mais do que ele, então nós merecemos pelo menos igual’.”

O Instituto Lula publicou na ocasião um documento com uma lista de 72 palestras proferidas por ele em todo o mundo, pagas por 45 empresas, entre 2011 e 2015. O faturamento total no período foi estimado em US$ 14,4 milhões de dólares – ou US$ 3,6 milhões por ano. Das 72 palestras, segundo as informações do Instituto Lula, 30 foram pagas por empresas investigadas na Operação Lava Jato, num total que, convertendo o dólar à cotação da data de realização, somou R$ 11,8 milhões.

Nos documentos apresentados pela força-tarefa da Lava Jato, a LILS, empresa de palestras de Lula aparece como tendo recebido, das empresas investigadas, R$ 9,9 milhões entre 2011 e 2014, ou 47% do faturamento da empresa no período, de R$ 21 milhões. Ao todo, entre abril de 2011 e maio de 2015, a LILS faturou R$ 27 milhões, sobretudo com palestras de Lula.

A força-tarefa analisou também as contribuições das empresas investigadas na Lava Jato ao Instituto Lula, organização sem fins lucrativos criada nos moldes da Fundação Clinton. Entre 2011 e 2014, elas somaram R$ 20,7 milhões, ou 60% dos R$ 34 milhões arrecadados. Ao todo, essas empresas pagaram no período algo como R$ 30 miilhões às entidades ligadas a Lula.

O memorando sobre as atividades de Bill Clinton, redigido por Douglas Band – ex-assessor no governo que continuou a trabalhar para Bill depois –, é datado de novembro de 2011 e se refere apenas às palestras e doações obtidas por meio de uma empresa ligada a ex-assessores, rebatizada Teneo em 2011. Trata-se de uma entre várias agenciadoras e de apenas uma das arrecadadoras de doações para a Fundação Clinton. Os valores, portanto, não são totais.

Entre 2006 e 2011, diz o documento, a Fundação Clinton teve um orçamento anual de US$ 20 milhões. Desses, US$ 46 milhões vieram da venda de convites para os eventos promovidos pela Clinton Global Initiative, que promove reuniões de poderosos, ricos e famosos, sob o pretexto de debater questões globais. A diferença, cerca de US$ 11 milhões anuais (ou R$ 17,3 milhões pelo câmbio de 2011) foi arrecadada de empresas. No período imediatamente posterior, o Instituto Lula arrecadou aproximadamente metade disso, ou R$ 8,5 milhões anuais.

As principais doadoras que a Teneo afirma ter trazido para a Fundação Clinton foram: Coca-cola (US$ 4,3 milhões entre 2004 e 2010), Fundação Rockefeller (US$ 4,3 milhões entre 2006 e 2010), banco Barclays (US$ 1,1 milhões entre 2008 e 2011), Dow Chemical (US$ 780 mil entre 2007 e 2011) e banco UBS (US$ 540 mil entre 2005 e 2011). O total arrecadado com essas empresas, em oito anos, soma US$ 11 milhões, ou US$ 1,4 milhão por ano (R$ 2,2 pelo câmbio da ocasião).

Os cinco maiores doadores do Instituto Lula entre 2011 e 2014 foram: Camargo Correa (R$ 4,8 milhões), Odebrecht (R$ 4,7 milhões), Queiroz Galvão (R$ 3 milhões), OAS (R$ 2,8 milhões), Andrade Gutierrez (R$ 2,8 milhões). Com as cinco empreiteiras, o Instituto Lula arrecadou um total de R$ 18 milhões em quatro anos, ou R$ 4,5 milhões por ano, aproximadamente o dobro do que os cinco maiores doadores citados por Band forneceram à Fundação Clinton.

Em seu memorando, Band se vangloria de ter ajudado Bill a obter mais de US$ 50 milhões em atividades lucrativas e de ter garantido US$ 66 milhões em contratos futuros. Os principais são de consultoria. A Teneo, diz Band, atraiu cinco clientes que pagaram por palestras. Os quatro principais foram: banco UBS (US$ 900 mil em 2011), Ericsson (US$ 1 milhão por duas palestras em 2011), banco Barclays (US$ 700 mil por duas palestras em 2010 e 2011), BHP US$ 175 mil (por uma palestra em 2012). Convertendo pelo dólar de 2011, o total daria R$ 4,4 milhões num período de dois anos, ou aproximadamente US$ 750 mil por palestra.

A primeira supresa é perceber que Bill parece cobrar bem mais de US$ 200 mil por palestra, ao contrário do que dissera Lula em seu depoimento à PF. Segundo os documentos da força-tarefa da Lava Jato, Lula recebeu, das mesmas cinco empreiteiras que doaram ao Instituto Lula, um total de R$ 9,5 milhões por palestras proferidas num período de quatro anos. É um valor, de fato, compatível com os rendimentos de Bill Clinton.

Já tive ocasião de assistir a palestras tanto de Lula quanto de Bill. São dois oradores exímios, que têm um raro poder de cativar o público. Difícil dizer quem é melhor. Eles também têm em comum o mesmo modelo de negócio: as mesmas empresas que doam a suas respectivas fundações costumam contratá-los como palestrantes.

O problema mais evidente nesse modelo é quando fica comprovada alguma troca de favores – aquilo que os americanos chamam de “quid pro quo” e nós de “toma-lá-dá-cá”. A Lava Jato acusa Lula de ter faturado com as palestras e de ter arrecadado dinheiro para seu instituto em troca dos contratos concedidos às empreiteiras na Petrobras e de outros favores. Isso é crime. No período em que Bill ganhava dinheiro das empresas, sua mulher era secretária de Estado. Pelo menos uma vez, Hillary mencionou um cliente dele em discurso – e uma de suas assessoras também trabalhava na Fundação Clinton.

É eticamente condenável que líderes de instituições sem fins lucrativos, cujo objetivo é a promoção de causas humanitárias ou políticas, tirem proveito financeiro de tal posição. Há uma mistura evidente de interesse público e privado. É possível argumentar que, como ex-presidentes, Bill e Lula teriam a visibilidade suficiente para garantir a clientela das palestras. O memorando de Band e a investigação da Lava Jato comprovam que a realidade não funciona bem assim.

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