No mesmo dia, delegado foi perseguido em Volta Redonda, onde morava. Divisão de Homicídios da Baixada investiga a morte de delator um dia após audiência na Justiça.
Por Henrique Coelho, G1 Rio
A execução de um ex-miliciano que testemunhou contra integrantes de milícias que agem em dois municípios da Baixada Fluminense, e a tentativa de intimidação de um delegado que investiga grupos na mesma região são investigadas pela polícia do RJ. Ambos os casos aconteceram no mesmo dia.
Imagens de uma câmera de segurança obtidas pelo G1 registraram o momento em que Rodrigo Felisbino Moreno sofreu uma emboscada e foi assassinado em Nova Iguaçu, em julho deste ano, um dia após depor na Justiça.
Três horas depois do crime, uma nova ação. Encarregado pela investigação que resultou na prisão de integrantes das duas milícias - que atuam em Belford Roxo e Nova Iguaçu -, o ex-delegado da 58ª DP (Posse), Rodrigo Coelho, foi perseguido em sua cidade natal, Volta Redonda, no Sul Fluminense, por um veículo preto e de janelas escuras. O caso foi registrado na 166ª DP e será investigado pela 93ª DP (Volta Redonda).
Ex-miliciano morto a tiros dispensou proteção
Era início da noite de 19 de julho deste ano quando moradores da Posse, em Nova Iguaçu, a 100 quilômetros de Volta Redonda, caminhavam tranquilamente por uma das ruas do bairro. Às 18h06, um carro entra na via a toda velocidade. Asssustados, vizinhos correm para suas casas enquanto Rodrigo era assassinado.
Rodrigo foi baleado várias vezes quando já estava caído no chão. O corpo dele foi encontrado por policiais do 20º BPM (Mesquita) por volta das 18h30 daquele dia. Ele respondia em liberdade por um processo de homicídio na região, e, devido ao acordo de delação premiada, não foi denunciado na operação que prendeu os grupos em Belford Roxo e Nova Iguaçu.
"O delegado avisou ao meu secretário, que por sua vez me avisou. No dia anterior, ele falou como as milícias funcionavam, falou tudo na audiência ", contou a promotora Elisa Pittaro, que responde pela Promotoria de Nova Iguaçu, e que firmou com Rodrigo um acordo de delação premiada.
A execução aconteceu um dia após a realização de uma audiência que levou ao banco dos réus milicianos das duas quadrilhas. Os indiciados responderiam a acusações de formação de quadrilha e tortura.
Rodrigo Felisbino Moreno recusou todas as ofertas de entrada em programas proteção para ele e sua família. Ao sair da audiência, disse que dormiria na casa de parentes, segundo o MP.
Moreno, que também era conhecido como RD, explicou em audiência no Fórum de Nova Iguaçu, no dia 18 de julho, como atuava a milícia em que agia em Belford Roxo. O grupo, segundo ele, cobrava taxas de segurança dos comerciantes e controlava o comércio de gás, água, internet e eletricidade.
A quadrilha também lucrava com aluguéis de imóveis, adquiridos ilegalmente depois de expulsar moradores e tomada de posse por parte dos chefes da milícia. Em outras abordagens os criminosos também foram acusados de agiotagem, segundo a denúncia.
"Eu andava junto com eles. Toda reunião eu estava com eles, e sempre estavam todos armados. E quando eles iam no comércio cobrar, eu ia junto com eles. Quando tinha tráfico, também tinha que ir junto", relatou o ex-PM antes de ser morto.
O grupo, segundo ele, atuava nos bairros Nova Aurora, Bela Vista e Shangri-lá. RD relatou que nasceu neste último, e que o grupo de extermínio que atuava na região tinha como um de seus componentes Domerice dos Santos, que tinha o apelido de Dito. Com o passar dos anos, no entanto, o grupo foi mudando sua forma e missão. Dito, apontado como líder da quadrilha, foi citado na CPI das Milícias, em 2008, como atuante de uma milícia na região de Belford Roxo. Na delegacia, Domerice afirmou que só falaria em juízo. Em audiência, negou as acusações.
"É que antigamente quando eu era criança eles atuavam como grupo de extermínio. Aí depois que eles vieram com esse negócio de milícia, começaram a cobrar", explicou RD durante a audiência. O grupo, segundo as investigações da 58ª DP (Posse), teria sido responsável por mais de 10 homicídios na região.
Já em Nova Iguaçu, o grupo, chamado de "Bonde do Trem", era dominado por Marcos André Oliveira da Silva, vulgo Cascão; Bruno Ribeiro Fontella, "Cara de Pedra", que deu nome à operação em julho de 2017; e Ednilson Jesus da Silva, vulgo Baiano. Este último é acusado da tortura de três homens que estariam atuando como justiceiros no bairro da Grama, principal local de atuação da quadrilha.
Um deles tinha, em um aplicativo de celular, a foto de uma caveira com a inscrição: "Deus julgará meus inimigos –Eu apenas providencio o encontro – Nova Iguaçu – Bonde do Trem”. Pelo menos três homicídios teriam sido cometidos pelo grupo, segundo investigações da Polícia Civil e do Ministério Público.

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Luismar Coutinho
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